Bolero, salsa e tango

Entrei no salão quando a luz ainda era tênue.

Ao centro alguns poucos arriscavam passos contidos.

Não é usual dançar na frente de todos tanta angústia.

Eu, ainda frio do orvalho, busquei qualquer uma das mãos que estavam ali e levei

Não nos precipitamos nem ousamos passos largos.

Muito menos uma finalização decente ao fim da canção.

Quando a luz ficou mais forte, a banda levantou para tocar.

Era forte a luz na cara, e surgiu gente de onde não tinha.

O ritmo levava o corpo sem esforço meu, nem de quem eu conduzia.

Sem ter a conta do número de corpos que estiveram comigo, só queria seguir dançando.

Num frenesi de giros e saltos, pés e pernas ligeiras trançavam-se

Pele e som eram a ordem.

Até eu sentir na minha mão um toque sedoso que me arrancou do topor em que eu havia mergulhado.

Breu.

Haviam rosas no ar

E não havia quem guiasse naquele momento.

Não havia mais ninguém como nós. E se havia, não podia ver.

Eu não tinha mais olhos.

Envolventes. Envolvidos.

Estamos numa dança da qual não vamos mais sair.

Música após música, até um tango final.

  1. A tanto tempo sem escrever e quanto retorna aparece um texto destes… excelente.
    Achei espetacular…
    Apesar do que vindo de vc nem é surpresa…

  1. 24 janeiro, 2011

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