Mutilar

Num semi-recinto fechado sento-me no chão. Aguardo.

Já fazem várias horas que estou aqui dividindo o ar com você meu amor.

Não quero que entenda mal o uso da palavra dividir. Pois compartilho de bom grado com você oxigênio e outras coisas tantas, que nem sei.

Você vem. Você se senta ao meu lado.

Eu escolho às cegas a faca mais pontuda. Amolada nos meu ossos mais duros.

Te rasgo.

Te apoio a faca nas costas e deixo ela escorrer rumo à sua vitalidade com o próprio peso de seu cabo incrustado de olhos de cobras.

Faço de olhos vendados. Sem noção do quanto estou te sangrando.

E não paro.

Mas juro que danço com a lâmina maldita na mão em sua direção às cegas.

Pareço estúpido. Demente. E sou.

Crio uma linha nova em seu rosto. Brinco de desenho.

Decido continua-la por todo o resto.

Me deparo com orelhas, lábios, olhos, nariz, jugulares, dedos. Tudo frágil.

Fácil de abrir e deixar escorrer para dentro as lágrimas da cobra que existe nos meus braços franzinos.

Acabado meu deleite egoísta, te observo escorrer tudo o que te presenteei com amor.

Vão se para fora sonhos, alegrias. Fé.

Eu? Desespero.

Não pelo sangue, mas pela sua dor. Pelo meu erro.

O grito desumano. O cheiro de medo. O gosto de veneno. O toque gelado. A visão da morte.

A visão do grito que transborda o gosto que inalo e sinto.

Culpa. Vergonha.

Naquele espelho negro que se forma no chão vejo o reflexo de todos que já fui me gritarem. MORTE!

Tento me furar. Cortar. Mutilar. Mas a faca cegou. Assim como eu no meu momento infame. Cegou.

Te abraço. Costuro o que posso. Remendo o que dá. Um frasco inteiro de remédio é pouco? Será?

Uma última ideia para tentar.

Me soco o peito para me quebrar. Triturando o máximo minhas costelas.

Me rasgo a pele com as unhas. Arranco tiras de carne morta. Nacos de músculos podres. Encho as mãos da minha merda.

E te dou aquilo que sobrou de nobre.

Junto ao seu, no seu peito, vive agora meu coração. Na esperança de te trazer de volta à tona para a vida que jamais desejei ter tirado de ti. Por que te amo.

Um pobre e desgraçado, mas para sempre seu,

Walter Costa

  1. Acho que nunca vi um texto expressar tão bem uma situação!

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